Sonhos da esquina

Há 20 anos, na época em que eu queria ser bailarina, eu conheci uma amiguinha que sonhava junto comigo na esquina de casa, na volta da escola. 

A gente continuou sonhando na vida, de maneira esforçada e dedicada, e pudemos colher os benefícios do nosso trabalho. 

Hoje eu fiquei engasgada ao saber que seu amor, seu companheiro de realização de propósitos foi embora.

Fiquei com vontade de recuperar a amizade pausada pelo tempo pra gente se encontrar na esquina de novo e sonhar sem medo. Pra simplesmente sonhar.

... o perfume do que perdeu


Terminei de assistir à entrevista do ator e sua frase final impactou também a entrevistadora: “Feliz é aquele que conhece o perfume do que perdeu.”
Forte e até soa como dramalhão mexicano pra quem não quer aprofundar na coisa.
O ditado mexeu comigo porque minhas memórias afetivas estão particularmente ligadas ao olfato e ao paladar... uma mistura sinestésica, admito.
Como ando desgostosa dos sabores que tenho ingerido (isso merece um post!), instantaneamente o cheiro de pessoas e tempos me abraçou e eu fiquei pequenininha de novo; com 5 anos pra ser mais exata. Naquela época eu não tinha consciência ainda, mas estava perdendo presença e sentimentos importantes que me dariam trabalho na vida.
Hoje eu entendo que existem coisas que perdemos e que “precisamos” perder pra que o novo assuma seu lugar. E só pode “conhecer o perfume do que perdeu” quem teve algo ou alguém essencial que, de alguma forma, faltou. Eu não posso negar que o perfume é um benefício natural das perdas e, de fato, é sábio quem o (re)conhece, mas longe de ser uma compensação.
“Dar conta” das lacunas que existem em nós é simplesmente saber que elas existem; é nos perdoar por não saber lidar com esse buraco da perda; é nos permitir sentir de novo o seu perfume; e é também reconstruir. Mas isso, na medida do possível.

Síndrome de Poliana


É verdade que pra viver é preciso debochar e que existem pessoas, quase teletransportadas do céu, que têm resistência maior ao mal humor e à intolerância. Mas, eu confesso uma certa antipatia (e receio) de quem está contaminado pela “síndrome de Poliana” acompanhada do “jogo do contente”.

Quando o Frejat disse que “rir de tudo é desespero” eu imaginava que ele estivesse falando apenas de uma euforia desmedida, sem atinar que o riso permanente diante de “todas” as situações também é desesperador.

Para a psicologia, o “sempre feliz” revela sua incapacidade de entrar em contato com a dor, impedindo o desenvolvimento maduro, que necessariamente acontece depois de uma fase depressiva (leia-se: fase necessária para elaborar os diversos lutos pelos quais passamos na vida).

Eu desconfio de quem está sempre positivo, motivado e resiliente. Pra mim, estas atitudes podem disfarçar acomodação e preguiça de ser gente; e a benevolência ao próximo, pregada pela filosofia polianística, pode limitar-se apenas a servir quem a pratica.

Escolhendo a lupa

Tenho percebido, com a contribuição da idade e de novas experiências, que comprometimento e competência não garantem o sucesso dos nossos empreendimentos. Tenho aprendido também que o “não sucesso” não significa incompetência; além do que, ele não descredibiliza um trabalho bem feito.

Tenho confirmado, na prática, que é possível que as pessoas nos reconheçam não apenas pelos resultados alcançados. É possível integrar lugares em que o outro valorize especialmente o que você é, levando em conta o contexto, muitas vezes adverso, para analisar desempenho e postura.

Naturalmente, estou sendo liberta de um exagero crônico. É como se eu estivesse começando a identificar exatamente qual lupa usar para cada ocasião. Com isso, tenho causado menos danos, especialmente a mim mesma, e dosado as consequências (boas e ruins) do perfeccionismo. 

Somatizações à parte, hoje importa que antes da autocrítica ou da autossabotagem, eu escolho analisar o todo. Eu demoro um pouco mais pra escolher qual lente usar para enxergar melhor determinada situação. Assim, eu preservo quem eu sou e o que eu faço das inverdades contadas por um sistema falível, antes acreditadas por minha desmedida exigência interna.

Tempo de apartar

Eu fui criada pra ajuntar sempre, pra nascer (ao invés de morrer), pra plantar (ao invés de arrancar), pra sorrir (mais do que chorar) e pra dançar (já que ficar parado pode ser uma forma de estacionar).

Eu fui educada pra guardar, pra costurar e pra calar, afinal é preciso manter a ideia fabricada de paz.

Foi difícil aceitar que o tempo de apartar existe e que tem uma função tão relevante quanto os outros períodos, cristalizados como positivos. Em Eclesiastes, um texto bíblico, o autor revela o tempo de “apartar” como uma fase oportuna para escolher, separar. Um tempo de amadurecimento, onde se tem tem o desafio de decidir no que investir (com ou sem a aprovação de terceiros), um momento de comprometimento consigo mesmo, desde os gostos gastronômicos à seleção de quem (e como) compartilhar a vida.

O tempo de apartar, para os mais distraídos, pode parecer um período egoísta. Pros que têm coragem de dar um passo além da obviedade, apartar é ação solitária sim, e necessária. Quem entrou nesse tempo sabe que vai experimentar as consequências doces e amargas de bancar as próprias escolhas. É apartando (e não apenas ajuntando, nascendo, plantando, sorrindo, dançando, guardando, costurando ou calando) que, desafiadoramente, se é fiel aos próprios desejos.

Encontro

Era madrugada e a sensatez me pedia pra desligar o computador porque o cansaço estava bravo comigo. Mas, insisti, teimosa.

Me supreendi quando me vi conversando com uma menininha que deu conta de rearranjar e colorir uma história enviesada por capítulos tristes. Fiquei admirada, mais uma vez, por ela não querer ser a princesa sonsa, mas também não admitir ser gata borralheira o tempo todo. 

Eu não tive “o insight” decisivo, mas pedi a Deus que a certeza de que a intimidade que construímos é um lugar seguro fosse o bem maior.

O nome dela, “Andrea”, diz respeito à poder, mas eu diria que Deus a teceu com autoridade e liderança, competências que só podem dar certo, se costuradas no amor. 

Estando tão próximas na intimidade, posso dizer que agora sei de onde nasce a força da letra que ela pronuncia e profetiza: É que pra ela não há máscara que resista a uma dor dolorida nem a uma fé que acredita sem ver. 

Meu cansaço foi embora, o sono veio e uma sensação abençoada de que no contato com o outro eu sou melhor. Em épocas de individualismo crônico, é curador compreender que no encontro somos retirados da margem; somos curados da dor de estar só. 

Diário de bordo


Eu seguro a sua mão. Pela primeira vez, te vejo com receio e entendo que é porque você não está pilotando o avião. Vê-lo assim, assumindo limitações, me deixa certa de que comigo você se sente à vontade para ser quem é. Eu te olho, me encosto, fecho os olhos e rezo, pedindo uma boa viagem e um pouco de paz pra você não ficar, assim, tão desconfortável. Eu aperto mais forte a sua mão pra você sentir que eu estou concretamente aqui, do seu lado. Te olho de novo e penso que também vou apertar muito os nossos filhos, na tentativa de isolar o abandono.
Te observo mais uma vez e sorrio timidamente querendo me emocionar.

Você me amou e me fez reviver. Não parou nos meus medos ou nas minhas limitações (pessoalmente insuportáveis). Você enxergou a mulher que existe em mim e me ajudou a me apropriar dela.

Foi você quem me ensinou a andar de mãos dadas e não me deixou ir à frente ou ficar pra trás. Você me salvou da predestinação ditada pelo complexo de édipo e não teve medo da minha loucura, mas pelo contrário, permitiu que eu expulsasse toda a criatividade escondida nela. Você não me abandonou e acha inteligente e intensa minha melancolia, mesmo que vez em quando ela se exceda. Você vai além dos meus preciosismos e vê o lado positivo deles.
Com você, Felipe, eu continuo sendo curada da fantasia de que “preciso estar impecável (por dentro e por fora)” pra ser amada. Com você eu aprendo que o amor pode acontecer mesmo quando o conflito existe e até quando uma das partes não tem nada pra oferecer. O amor continua sendo real mesmo que não nos encaixemos nos roteiros românticos tradicionais ou ainda que precise existir esforço pra continuar.
Com você eu descansei de querer o pronto e acabado; estamos construindo, com transtornos na obra, com a expectativa dos resultados e, acima de tudo, dispostos a aproveitar a beleza e as conquistas deste caminho.

Ela vai casar

Você acredita que só ontem eu percebi que a gente não estava mais passeando na avenida pra ver sua paixão platônica? Eu acho que meu inconsciente jurava que os longos papos pela internet ou por telefone ainda falavam das relações que estariam por vir. Mas, ontem (só ontem!) eu entendi que a vida nos envolveu de prática pra experimentarmos tudo o que, de fato, é possível ao amor agora. 

Sim, eu já sabia que você iria se casar, mas desliguei o telefone e chorei agradecendo a Deus. Agradeci pela grandeza do que une vocês e pelo orgulho que me invadiu ao vê-la tão corajosa, passando por cima das obviedades das etiquetas sociais pra celebrar um casamento forjado no amor e na decisão lúcida de celebrá-lo todo dia.

Eu desejo que sua casa continue sendo construída a quatro mãos e que o amor seja a medida de todas as coisas. Eu desejo que o lar seja de dentro pra fora e que haja o que houver, Pri, que a gente continue juntas, perseguindo as pequenas felicidades da vida; aquelas que realmente fazem sentido.

É Natal



Hoje eu conheci o João Victor. Ele é um garoto de 10 anos que mora no interior de São Paulo e está aqui em Barretos fazendo radioterapia para curar um câncer na nuca.

O João Victor é uma criança sorridente e comportada, acredito que resultado dos 6 anos de tratamento e das 3 cirurgias que encarou.

O que mais me impressionou, no entanto, não foi a coragem e a paciência dele e do pai. O que mexeu comigo foi o diagnóstico emocional dado desde o início: o câncer foi causado pelo abandono da mãe, que saiu de casa sem dizer pra onde ia e até hoje não deu notícias. É isso mesmo que você leu: O João Victor fez um câncer por conta do abandono da mãe.

Ainda estou impactada, pensando nos malefícios dos abandonos que sofremos, especialmente quando criança. Realmente não temos noção do que o nosso “não comprometimento” causa nas pessoas. 

Estou com uma vontade incontida e pretensiosa de colocar o João Victor na manjedoura para amá-lo junto com o Menino Jesus, à Sua maneira, até ele sarar na alma e no corpo.

Simplificando

Eu confesso que ter o falso controle sobre as coisas é uma ilusão que me agrada porque eu fantasio que estou checando tudo com a medida do meu crivo exigente. Quase uma ignorância, eu sei. 

Controlando, eu tenho a enganosa sensação de que vou evitar ao máximo os conflitos, que me fazem sentir alguns incômodos (físicos até!).

Nesse tempo em que me sinto um pouco desinstalada das minhas condições perfeitas para o “bem viver”, tenho aprendido a voltar à simplicidade. Tenho aprendido que apropriar-me da minha verdadeira essência e esperar são, ao mesmo tempo, pontos de parada para descanso e combustível para a caminhada que segue.